Centenas de milhares de coisas acontecem enquanto você luta bravamente para cumprir uma sequência banal de inspirar e expirar, barganhando oxigênio e devolvendo gás carbônico. Centenas de milhares de coisas acontecem enquanto seu coração pulsa desesperadamente, engatando um ritmo frenético de batidas descompassadas. Centenas de milhares de coisas acontecem enquanto você hesita, interrompendo a troca de passos na rua por alguns segundos, a fim de calcular se está indo na direção certa. Centenas de milhares de coisas acontecem em uma velocidade absurda, enquanto você se move em câmera lenta, guiando-se por uma sensação de – de quê mesmo? – temor. Centenas de milhares de coisas acontecem – e você as perde – enquanto sente medo. Enquanto você está parada diante da entrada imponente daquele prédio onde fará sua entrevista de emprego, seu concorrente já fez amizade com a recepcionista e ocupa uma poltrona confortável na sala de espera. Enquanto você não sai na chuva por medo de um resfriado, há casais beijando abaixo dela. Enquanto você teme a morte, o mundo vive. Os carros não param de atravessar os cruzamentos, as músicas não são interrompidas nas rádios, o país não decreta feriado, a Terra não atrasa sua rotação… Não há pausas para nos dar o direito de sentirmos medo por muito tempo. Cinco ou seis segundos de hesitação são permitidos, porque ser inseguro faz parte de ser humano. Mas, um minuto perdido por medo é um minuto a menos de decisões tomadas. E menos decisões são menos chances. E menos chances significam menos vida. E é assim que deixamos que os temores vão nos matando aos poucos.

É assim que surgem os casais mal-casados por uma vida inteira, com medo de voltar atrás. E os solteiros cinquentões que aos vinte e poucos anos sentiram medo de se amarrar. E os que se arrastam para o mesmo emprego entediante há anos, porque têm medo das contas a serem pagas no fim do mês. É geralmente por medo que as pessoas não procuram outras alternativas além daquelas que já têm. E quem não procura, obviamente não encontra. Então, mesmo que nunca se encontrem, as pessoas preferem desejar sorte umas às outras, enquanto se mantêm afastadas dos riscos – quaisquer que sejam. As pessoas não sabem, ou fingem não saber, que é justamente após os riscos que está aquilo que procuram. E para se cruzar os riscos é necessário mais coragem do que sorte. Para deixar a zona de conforto do que nos parece familiar – ainda que tedioso – é necessário, antes de tudo, não sentir medo. E qualquer pessoa sensata dirá que é saudável e não há nada de errado em calcular a queda ou o voo antes do pulo. Mas é necessário pular mesmo assim. Afinal, é quando se cruza os temores que a vida passa a acontecer de verdade.

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