Estou sozinha aqui dentro meu quarto, dentro do meu mundo. Espio pela janela e só vejo aquela garoa fina. Um céu pesado, uma dor no peito. Nem sei há quanto tempo estou na mesma posição, olhando para o mesmo lugar, para o mesmo vazio. Não tenho fome, nem sede. Mal sinto meu corpo. Meu problema no coração é incurável e eu estou aqui esperando a eutanásia de alguém que tenha compaixão por mim.

A perda de um amor que foi embora é o verdadeiro luto da morte em vida. Não queremos comparações de que as pessoas tem problemas maiores do que os nossos, como a miséria mundial, contas em atraso ou doenças terminais de entes queridos. No momento do abandono e da solidão, nada é mais importante do que retirar aquela faca espetada no peito. Não há explicação que justifique a dor de terminar o que era pra sempre. É uma decepção empírica, um raiva da própria existência. Você se pergunta o que fez de errado, como foi parar ali e se é possível começar de novo.

Mas não dá. A vida não te permite chorar pelo que é importante pra você. O relógio é implacável no dia seguinte e o tempo é um sábio, porém, duro professor. As lições não são nada simples e o pior é que não queremos aprender.

Sigo rodeada por essas paredes geladas, por uma música triste, pelas lágrimas que insistem em me fazer companhia. E sabem o que é pior? Eu gosto. Preciso de uns 3 dias de extremo sofrimento. Choro misturado com berro, com força para a dor sair. Tenho que me olhar no espelho, deformada e acabada, para só então, recomeçar minha história. É como se eu tivesse que arrancá-lo de mim, praticar uma metamorfose de sentimentos, que irão me transformar numa nova mulher. O luto me faz descobrir os motivos do término. No primeiro dia, eu quero morrer. No segundo, eu quero matar e no terceiro, só me resta viver. Quem não externa a sua dor, está sujeito a levá-la consigo.

Estou no processo, isolada do mundo, exterminando você de mim. Logo, logo eu saio por aquela porta. Espero que o sol me reconheça, mas se ele me encarar, eu coloco uns óculos escuros e sigo em frente. A dor ficará pra trás, naqueles dias sombrios, num lugar chamado passado.

Texto por Chico Garcia, conheça o blog dele!

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