Alguns conhecidos me disseram que nós dois somos contagiosos. Nós dois e esse nosso sentimento absurdo de tão terno. Nós dois e essa ternura absurda de tão grande, de tão quente, de tão espontânea, de tão ingênua. Me disseram que somos contagiosos porque levamos os outros a quererem uma ternura semelhante à nossa. E quem não quer?, eu me pergunto. Quem não quer ser um de nós, e deitar a cabeça sobre o peito do outro para dormir em paz? Quem não quer os nossos abraços de reencontro – que são os mesmos depois de poucas horas ou de uma semana inteira sem nos encontrarmos – sempre entusiasmados e apertados como um nó? Afinal, é isso que somos, um nó. Somos um só.

E quem não quer ser um só, feito de dois?, pensei com meus botões. Se há alguém nesse mundo que prefira ser sozinho – e deve haver – então esta pessoa está salva de nós, imune ao nosso contágio. De resto, todos os outros trilhões de criaturas se sentiriam um pouco contaminadas por nós dois, caso nos encontrassem. Todos se sentiriam comovidos, tenho certeza. Mais que isso: todos se sentiriam motivados a serem um pouco parecidos conosco. E não por que sejamos perfeitos – afinal, não somos. Mas porque, como disseram os conhecidos, somos contagiosos. Somos como aquele casal que se beija na pista de dança e cujo simples beijo motiva os outros casais a dançarem mais próximos e a se beijarem também. Somos tão comuns, tão banais, que foram necessários litros de amor para nos tornar pessoas especiais. Foram necessários litros, para escorrer e contagiar os outros à nossa volta. Por fim, nos tornamos uma fonte para quem tem sede de sentimento. Nos tornamos nós, e não mais eu e você.

Separados, somos exemplos previsíveis e triviais de seres humanos. Somos carne, sangue e instintos. Somos entediantemente normais. Eu sou tão clichê quanto você. Mas juntos, somos incríveis. Juntos somos um borrão colorido que vibra em ondas, espalhando nuances variadas de cores em um mundo acinzentado. Somos contagiosos porque nosso amor é de vanguarda, é revolucionário, é diferente de tudo aquilo que já existe e que foi catalogado. Juntos, somos dotados de uma força poderosa à qual ainda não atribuíram um nome, mas que pode ser sentida de longe. E por isso mesmo, é difícil não reagir quando se está perto de nós. É difícil não erguer os lábios em um sorriso, mesmo modesto, diante de tanto afeto. E cada simples sorriso, já é um sintoma de nosso contágio, do nosso romance. Afinal, o dever dos românticos é exatamente o de contagiar o restante do mundo, a fim de torná-lo um pouquinho mais justo, um pouquinho mais nobre, um pouquinho mais bonito. Acometidos de amor, nós estamos apenas cumprindo o nosso dever: disseminando essa espécie de vírus que, no fundo, significa nossa cura.

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