Eis meu estado: meu telefone se encontra no silencioso para calar sua voz e seu grito de arrependimento e o resto? Bem, estou tentando não pensar no assunto. As fotos e cartas e qualquer vestígio seu, estão espalhados pela casa em pedaços, que rasgam e tiram você por completo de mim. Os mesmos pedaços em que eu me encontrava e não serviram em você, estão perdidos nos cantos desta casa vazia. Uma casa tão vazia quanto eu. Tão cansada de ser preenchida e alugada e visitada por todos sem permanência, sem compra, sem alguém que a alugue eternamente. Meus contratos são de curto prazo exatamente para evitar que as pessoas abusem e fiquem por muito tempo e se intitulem donos de toda a minha arquitetura, dos meus móveis, das minhas paredes descascadas e do meu quintal. São meus, entende? Mas quando é que vai aparecer alguém suficientemente capaz de tomar posse de tudo sem me pedir nada? Alguém que me faça querer dar todos os registros e documentos e dizer: “Sinta-se em casa”. Esse alguém poderia ser você, mas você não soube, não foi capaz.

E agora eu estou agarrada ao último fio de esperança e dignidade que restou, eu o mantive firme aqui e não vou soltar. Vou me agarrar aos detalhes para não perder a situação por completo, gosto do controle. Controle esse que você conseguiu tirar das minhas mãos. Bagunçou tudo, me fez perder noites de sono, de paz, me fez perder a direção. E eu comecei a andar em círculos e girar em torno de pensamentos mirabolantes e situações constrangedoras ensaiadas em minha cabeça. Justo eu? Eu não era assim, eu não sou assim. Estúpido, idiota, ridículo. E todas as noites eu pedia para que você caísse fora da minha casa, mesmo você não estando mais aqui. E ordenava que os pensamentos que se formavam com suas imagens em minha cabeça fossem pro inferno, junto com você e seus sentimentos dignos de pena. Você nunca mereceu isso, aliás, você nem sequer merece esse texto, mas é uma forma que encontrei de te calar dentro de mim e em todo o resto.

Você sabe bem que o “resto” a que me refiro são estas 37 ligações perdidas e essas muitas mensagens em que você se humilha, se arrasta e se abre por completo buscando por perdão. Eu lhe disse, querido. Não uma, não duas, mas milhares de vezes que não me deixasse cansar. Que não me deixasse desistir, nem enjoar, mas você simplesmente deixou. Se deixou levar e fez com que eu fizesse o mesmo. Você foi único por um momento, e de repente era mais um. Você foi o bairro mais nobre de toda a cidade que eu inventei pra gente, e de repente se tornou periferia. Você era presente, passado, futuro e todas as bobagens que eu fiz e refiz várias e várias vezes por você. Mas você perdeu, meu bem. Perdeu o rumo, a cabeça e se perdeu. Perdeu os dias de chuva, as canções, os textos, os filmes e todo o melodrama. Foi e voltou. Permaneceu no momento errado. Perdeu o brilho, a cor, o amor. É, você me perdeu. Seja feliz.

Texto por Raiane Ribeiro, conheça o blog dela!

Post Anterior

Acho que vi um gatinho...

Próximo post

Estudar moda: Senac