As luzes dos faróis começam a acender na minha frente. O trânsito engarrafado é o prenúncio da noite. Lá fora uma garoa fininha, 11 graus em Porto Alegre e eu tentando me aquecer com a companhia da Adele. Quem sabe eu não encontre “Someone like you” por aí. O sinal vermelho à minha frente, me lembra que eu não tenho pressa de chegar em casa. Não quero ter que descer do carro, encarar o porteiro e desabafar com meu gato. Pelo menos aqui a Adele me entende.

Tá e se não existir ninguém como ele. Onde vou achar um cara que seja inteligente e engraçado ao mesmo tempo? Que seja bonito sem chamar atenção, mas sedutor a ponto de eu desejá-lo a todo o instante. Que seja charmoso o suficiente para eu ter aquele orgulho que eu nunca tive ao estar com alguém. Poxa, vida, eu sei que sou meio independente demais, autossuficiente demais, mandona demais, mas também é porque sou mulher demais.

O que você queria? Sem TPM, sem confusões na minha cabeça, sem oscilações de humor? Sem reclamar da tampa da privada, da pasta de dente com o recheio lá embaixo, das cobertas que você insiste em puxar? Sem reinar nas vezes que você me acorda um minuto antes do despertador tocar, ou miar que hoje é terça-feira e eu não estou a fim de viver? Eu sei, reclamava até de você me mimar demais, mas quando eu mais precisava, você ficava distante. Sim, sou insatisfeita, mas você sempre disse que ia me fazer feliz. Não perguntou se era fácil. No fundo sou uma pessoa legal, mas você chegou na metade de mim.

Nesse momento, a Adele já parou de cantar e eu peguei o caminho da sua casa, sem perceber. Hum, a janela está acesa, será que você está em casa? Está sozinho? E se eu descer, apertar o interfone e assumir que sou ré confessa da morte do nosso relacionamento. Acho que por você eu até consultaria um médico para ver esse meu transtorno obsessivo compulsivo por planejamento. Pois é, estou aqui pensando no que fazer, enquanto a minha roupa na corda vai ficando dura com esse frio. Tá na hora de recolher. A sinaleira abriu e o verde me avisa: tenho que aproveitar para seguir em frente, o Renault de trás já está buzinando. Tudo bem, afinal eu nunca teria coragem de fazer isso mesmo. Ainda dou uma olhada para o visor do celular. Será que ele não vai sentir saudade? Bem que poderia mandar uma mensagem justo agora. Olha só eu fantasiando. Volta pro seu corpo, menina. Vai, fecha os olhos, agarra o volante e respira fundo. Se for preciso, aciona o John Mayer do porta-luvas. Ele sempre tem uma palavra certa numa hora difícil.

Pronto, hora de seguir, afinal aquilo que chamo de vida, continua. Eu não preciso de amor. Tudo que eu mais quero agora é encontrar minha rua, o CEP do meu coração, o endereço da minha vida. Incrível, mas sem você e, só por você, eu fico assim: completamente perdida.

Texto por Chico Garcia, conheça o blog dele!

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