Rejeição

Por que insistimos em gostar de quem não gosta da gente? Talvez seja pela nossa necessidade de autoafirmação, de ser desafiado como todo ser humano, na eterna busca pelo improvável. Dizem por aí que as mulheres gostam de um desprezo. Discordo. Mulheres gostam de carinho e esse certo masoquismo emocional não é exclusividade das fêmeas. Eles também adoram uma negação. Estimula a sedução.

Todos nós já tivemos um amor bandido, aquela paixão por quem não nos merece. Uma incrédula submissão, de um jeito que nosso próprio espelho desconhece. E por que continuamos tentando, mandando aquelas mensagens na madrugada? Sei lá, maldito coração, ele escolhe errado e o corpo padece.

Aquele carinha bonitinho é tão carinhoso, me elogia no facebook, me dá “bom dia” todas as manhãs. Qual é o meu problema? Fico pensando naquele idiota que ignora meus torpedos, meus olhares. Babaca, estava com aquela barba por fazer, ontem à noite, na aula. Tão irritante aquela camisa xadrez que destaca seus olhos castanho-esverdeados. Que raiva! Um jeito arrogante que me derrete e eu fico aqui, perseguindo seu rastro na internet. Passa das duas da manhã e eu já perdi a conta de quantas vezes olhei essa foto dele sem camisa. Depois acordo com ódio de mim mesma por ter sonhado com ele. Saco!

Certa vez alguém disse: “manda na relação quem se importa menos”. Será verdade? Não falo daquele equilíbrio do amor verdadeiro, em que as ações não são calculadas. Nesse caso, a mulher não contabiliza as flores não dadas, os beijos sonegados, ou as carícias distribuídas. O homem não se preocupa se ela demora pra responder seus telefonemas, ou se chega mais tarde após a happy hour com as amigas. A saudade não significa desespero e o ciúme se torna um objeto estranho ao casal. Falo daquele momento da descoberta do outro, do começo de tudo, onde a conquista domina as horas do nosso dia.

No início da relação a dois, sempre tem um que toma a iniciativa, que aciona o cupido, que busca a sua felicidade e espera que ela combine com a da pessoa desejada. Mesmo quando o amor está surgindo e é correspondido, há uma força maior para que a união aconteça e, nesse caso específico, o perseguido, ou a pessoa conquistada, sempre estará um passo à frente. Ela terá o rumo da história, poderá decidir a frequência dos encontros e o tamanho do compromisso. Tudo isso está em duas mãos, não em quatro. A outra boca aguarda a hora certa para beijar e espera pelas respostas ausentes.

São aquelas leis indestrutíveis da vida amorosa. O rejeitado corre atrás de quem despreza. Depois de um tempo desiste e o outro percebe a falta que lhe faziam aqueles cuidados diários. O jogo vira, a vida dá voltas e, por vezes, o sentimento inexiste, é sucumbido apenas pelo orgulho de não admitir uma rejeição. Pior de tudo é que não existe solução pra isso. A fórmula do amor é complexa, contém ingredientes insanos e nunca sabemos se é a dose certa. O jeito é experimentar, viver, tentar, amar, sofrer e se entregar. No final, sempre terá valido a pena. Ou é amor, ou foi lição.

Por Chico Garcia, conheça o blog dele!

Amor maduro

Homem mais velho é sempre mais interessante, porém difícil de entender. Não sei se é porque ainda não tenho a idade dele, mas às vezes me soa tão infantil essa perseguição exagerada. Relaxa, cara, o mundo não acaba amanhã. Existe uma distância de idade inquestionável. Nossa faixa etária está tão longe quanto nossos pensamentos, projetos e filosofia de vida. Jeito de pensar, de agir e até certas preferências. Como ele pode ser tão necessário e ao mesmo tempo tão diferente do que eu quero?

É engraçado, fujo desses garotos contemporâneos impulsivos e inconsequentes, que desdenham da oportunidade de me conhecer melhor por medo deles próprios. São covardes e preferem o subterfúgio da autoafirmação, do que a liberdade dos beijos juvenis, da exposição da alma. Como são tolos. Tolice, aliás, é adjetivo masculino, independente da idade. Experiência é ilusão. Dias no calendário não significam vivência, alguns caras apenas existem. Um macho com rugas acredita ser melhor do que verdadeiramente é, quando o talento está na simplicidade dos gestos, na autonomia dos sentimentos, no descansar dos olhos, na confiança do despertar. Nem sei por que insisto, isso tudo é sinceridade demais para eles.

Eu quero um homem com “H”, com cheiro de perfume forte, com aquele antebraço largo, quente e revestido por pelos de um lobo protetor. Cansei de andar na corda bamba da minha vida circense. Preciso de uma palavrinha-chave, que abre todas as portas do meu conflito pré-adulto: Segurança. Quero caminhar no abismo, sem me preocupar em me esborrachar lá embaixo, simplesmente por estar amarrada em cordas de lealdade. Mas isso não se pede, exige, ou sugere. O contrato de confiança é assinado no olhar, é ele quem sustenta a fidelidade. A explicação para isso está no adultério, que provoca a rescisão do acordo e, a partir dali, os olhos não conseguem jamais se cruzar.

Sim, tô revoltada. É difícil entender como alguém que me faz tão bem pelo que representa, me chateie tanto pelo que realmente significa. Ele é ótimo comigo, conquistou minha mãe e minha irmã e nem falo das minhas amigas. Tem aquele jeito superior que não instiga, enoja. Uma voz baixinha que não seduz, irrita, além da inteligência afrodisíaca, que não me balança nem um pouco. Pelo contrário, me sinto inferior e o que resta é constrangimento. Tento me adaptar ao que não sou, me aproximar de um mundo do qual não pertenço e me afastando de mim, já nem sei mais pra quem eu estou olhando nesse momento, enquanto jantamos. Sim, eu sei, sou complicada também e pode até me chamar de imatura, mas é exatamente por essa minha inconstância de ser, que preciso alguém firme do meu lado. Não te escolhi pela idade, e sim pela tua capacidade de alcançar um lugar onde eu jamais poderia chegar. O problema é que já avisto esse horizonte e sinto que vou cruzá-lo mais rápido do que eu pensava. Mais do que isso, percebo que a viagem até os meus objetivos não será interessante, afinal você não vai suportar isso. Sinto muito, vou ao toalete retocar a maquiagem e a minha vida. Sou inquieta e agoniada. Pra mim, felicidade é movimento. Busque alguém que consiga viver parado.

Chego em casa, entro no chat, à noite, e vem a minha melhor amiga me perguntar o que deu errado e o que eu quero afinal. Se o melhor é um homem mais velho ou mais novo? Mandei a seguinte mensagem: “Maduro ou imaturo, prefiro sempre a sinceridade dos olhos. O resto é entrega e consequência.” Assim, dormi sorrindo com as minhas convicções e ciente de que já sei me equilibrar melhor na corda bamba. Afinal, a queda faz parte do espetáculo da vida. E eu sempre me levanto.

Por Chico Garcia, conheça o blog dele!

Click

Click é aquela sensação de que alguma coisa se modificou dentro da gente. É uma interrogação que o corpo se faz, um arrepio sem procedência, um sorriso espontâneo provocado pelo timbre da voz. Click é um sinal interno de que o seu dia mudou de nome a partir de então.

Nunca esperamos o click. Pode ser num olhar, numa conversa ao telefone, ou em um esbarrão no meio da festa. Naqueles segundos em que os corpos se encontram, mas não se enxergam, você já sente algo estranho, familiar. O click é um sentimento confuso, sem identidade, chega quando quer e entra no peito sem avisar.

Certa vez, o click apareceu antes mesmo de conhecê-la pessoalmente. Só de ouvir falar nela, senti uma empatia genuína, um carinho instantâneo e, a partir dali, minhas reações extrapolaram qualquer normalidade aparente. Eu só provocava um assunto com nosso amigo em comum. Sem me dar conta, demonstrava interesse por alguém que meu olfato ainda não reconhecia, que apenas meu sexto sentido identificava. O click invade sem que você perceba e abre as portas para o encantamento. Uma vez encantado, não há espaço para raciocinar.

Eu nunca havia tocado nela, olhado pra ela, mas bastava falarem dela – inclusive com outros caras – e eu sentia ciúmes, vontade de protegê-la. O curioso é que nem assim eu imaginava que algo estava acontecendo, talvez por tudo isso ser uma grande loucura da minha parte. Ingenuidade. O click tem um quê de insanidade.

Não é raro sentir atração por alguém que não conhecemos ou não vimos o rosto. Para haver o click, a pessoa nem precisa ser bonita, engraçada, ou ter um bom papo. O click é irracional e não significa que se transformará em paixão. O click é o embrião do sentimento, pode durar horas, ou alguns dias. É um estalo do coração, brilho efêmero dos olhos. Desperta a vontade de ser feliz.

Texto por Chico Garcia, conheça o blog dele!

Brigas

A briga é o grito do relacionamento, explosão do desconforto, suspiro da raiva. Há quem goste de brigas, apenas para movimentar a união. Pessoas que precisam do caos para organizar a rotina, necessitam da dúvida para encontrar as respostas. Quem pensa assim, entende que a briga reinventa a relação. Na briga, dizemos o que o orgulho manda. Ao esbravejar, somos cúmplices da crueldade e nosso principal objetivo é ferir o outro. Duelo entre teimosia e ódio, numa disputa em que ambos saem derrotados. A cabeça ferve, a língua age e o coração sai machucado. A briga está intrínseca ao lar, faz parte da mobília do casal e, dependendo da intensidade, desarruma a casa de vez.

Brigas fazem parte, ensinam e transformam o namoro ou casamento. O problema é o excesso. Reclamação em ousadia pressupõe insatisfação constante, quase infelicidade. Nessa hora é preciso discutir consigo mesmo a razão de insistir nessa situação. Brigar demais pode ser um vício, necessidade de descarregar no outro a própria inconformidade com a vida. Briga é autoafirmação, autoconhecimento e desconhecimento dos defeitos do parceiro.Provocar a briga é uma revolta em causa própria, egoísmo emocional, vontade ditatorial de dominar a relação. Pode ser o ciúme, o pó de café na toalha da cozinha, a porta da geladeira aberta, a coberta roubada de madrugada, ou o esquecimento de algo combinado previamente. Nada irrita mais do que a negligência num relacionamento. Somos carentes por natureza e precisamos da atenção alheia, pois não há felicidade maior do que ser cuidado por alguém.

Depois da briga, vem o choro de arrependimento. Desculpas desamarram o abraço e o toque mata a saudade da pele, expulsando o orgulho do peito. É triste quando percebemos que as palavras podem ferir quem amamos. O beijo não conserta tudo, mas é o começo do acerto – e o carinho – a porta de entrada para o perdão.

Brigas revelam o pior da gente. Os erros mostram a verdade da alma, a sinceridade do ódio, o desespero da carência. Na briga, mostramos quem não queremos ser, mas quem podemos nos tornar quando somos contrariados. Brigar nunca é bom, mas é um rito de passagem que amadurece a relação. Gostar de brigas é patologia. Evitar brigas pode provocar uma discussão maior e definitiva. A receita está na confiança do desabafo, na veracidade dos olhos, no sincericídeo da entrega. Um casal sabe que existe amor, quando a briga nunca enxerga a luz do amanhecer.

Texto por Chico Garcia, conheça o blog dele!

Minha boca estúpida revelou, mais uma vez, pensamentos sombrios. Não, devaneios. Só disse demais e estragou o que a gente tinha de melhor. O que eu tinha de melhor, que era você. Tudo o que eu sei é que o que você sentia por mim mudou completamente. E você pode dizer que me ama, que está tudo bem e que vamos superar todos os empecilhos juntos, mas quando pego esse seu olhar vago enquanto converso sobre sentimentos, me desespero. Cresci sabendo que temos que pensar antes de falar, que precisamos filtrar nossos sentimentos e emoções pra não machucar quem está ao nosso redor, mas minha boca estúpida com a mesma mania de intensidade de sempre disse tudo o que veio à mente, desse jeitinho mesmo, na lata.

Sei que no meio de tantos gritos, verdades e desabafos deveria conter coisas que eu penso quando te olho. Acho que nunca te contei que tentei te esquecer várias vezes. Inúmeras. Sempre fui tão boa nisso. Simplesmente me cansava, virava as costas e partia. Mas com você não dá. Talvez seja a sua leveza enquanto coloca o cabelo atrás da orelha e dá um sorriso tímido. Ou quando briga comigo e me diz que tenho que ser mais maduro e ter mais responsabilidade. Acho que é a forma como você se mexe e o modo como mexe comigo. E em minha busca louca por finais, te disse aquelas coisas todas. Mas aqui estou de volta pra você, como sempre acontece. Não dá pra esquecer e engolir em seco o seu “acabou.” porque todos os nossos finais são recomeços antes mesmo que terminem.

Você segue minha sombra e some no escuro do meu quarto pra deitar em minha cama. E me olha rindo quando penso na possibilidade de tentar algo novo, sabendo desde o início que nunca funcionaria. Porque nunca encontrarei outro você. Então esqueça as bobagens daquela noite. E lembre-se que todas as vezes em que você tentar me tirar da sua mente, eu vou me jogar no seu coração e na sua alma e no seu destino. Porque estou tão fixado nele quanto você no meu. Então não perca tempo, nem nossas segundas chances. Prometo nunca mais falar nada que te magoe e te tire o chão de novo, amor. Não vá embora, prometo voltar a ser um mistério. Uma incógnita. E calar a minha boca estúpida pela milésima vez.

Texto por Raiane Ribeiro, conheça o blog dela!

Como saber se um sentimento é verdadeiro?, ouvi uma romântica perguntar para outra, em uma dessas conversas de corredor. Como estava atrasada e minhas boas maneiras estavam firmes e fortes nesse dia, passei adiante e não esperei a resposta. Mas, fiquei formulando bons argumentos e explicações quase empíricas, para o caso de alguém me fazer o mesmo questionamento em uma outra oportunidade. Então, um dia desses, aconteceu. Me perguntaram como seria possível dizer que um sentimento entre duas pessoas é verdadeiro. E eu estava preparada para duas respostas – cujos critérios de escolha seriam meu tempo disponível, minha paciência e a maturidade de quem me dirigisse a pergunta. A primeira resposta era simplista demais, mas deveria servir para um caso de pressa. Eu diria que não há como saber. Direta e rapidamente, eu diria que para cada sentimento entre duas pessoas, há um risco embutido que é necessário assumir. Você apenas mergulha e se permite sentir, apostando as fichas na possibilidade de que a outra pessoa envolvida sinta o mesmo por você – e que sinta de verdade. Acredito que essa seja uma boa resposta e, talvez, a mais praticada ao redor do mundo. Muitos não sabem ao certo se seus sentimentos por alguém são profundos, verdadeiros, imutáveis; e, muito menos, se são verdadeiramente correspondidos. Mas, mesmo assim, todos correm o risco.

Na ocasião, porém, fiquei com a segunda opção de resposta que eu havia bolado para a mesma pergunta. Eu estava inspirada e minha interlocutora tinha algum tempo livre. Então, despejei sobre ela todo o açúcar e a credulidade necessários para que levasse a sério o que eu dizia. O mesmo que digo agora, com a mesma certeza digna de um testemunho em tribunal: Quando os sentimentos são verdadeiros, a gente simplesmente sabe que são. De um modo ou de outro – ou de vários modos, na realidade – nós apenas sabemos. Quando alguém segura nossa mão, alguma coisa nos aponta se há ou não sinceridade naquele gesto. Quando alguém acorda ao nosso lado e nos faz acreditar que nossos olhos ainda inchados e pesados são maravilhosos de se ver, a gente simplesmente sabe se é sincero.

Não é naquelas sextas-feiras, em que escovamos os cabelos, usamos vestidos justíssimas e nos perfumamos com Nina Ricci para o encontro a dois, que sabemos que o sentimento é verdadeiro. Nós só descobrimos no sábado, quando o telefone finalmente toca. E quando volta a tocar no domingo, na segunda, na terça… Ou depois, quando atendemos a porta despreparadas, de camiseta surrada e short desbotado, com os cabelos desgrenhados e metade das unhas ainda por fazer, e recebemos o mesmo sorriso de admiração. É quando choramos pela primeira vez no colo do outro, quando queimamos o primeiro bolo de chocolate, quando pegamos um resfriado no fim de semana, quando tropeçamos, soluçamos ou nos engasgamos. É nas menores coisas e nos mais insignificantes acidentes do dia a dia que a gente descobre se um sentimento é verdadeiro. Naquela flor roubada do canteiro do prédio sem que o síndico perceba, naquele convite ilustre para jantar com a família, naquela música ensaiada ao violão para impressionar, naquele eu-te-amo sussurrado, de quem não precisa falar alto para falar sério, a gente sabe. A gente sempre sabe. Antes disso, é claro, a gente assume o risco e se joga do penhasco sem testar o paraquedas. E quando ele, enfim, se abre, a gente respira com alívio e percebe que aquilo é real. Então, com tranquilidade, a gente voa.

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