Sempre tem aqueles dias em que eu me levanto da cama só para me arrepender de algo. Começar com o pé direito mas fazer questão de realizar tudo com o esquerdo procurando pelo que lamentar no dia seguinte. Não dá pra saber se é carência, loucura ou saudade do que nunca tive, simplesmente acontece. Agindo de acordo com tudo o que me parece errado e provando o gosto da busca desiludida vou ligar pra pessoa errada, atender a chamada daquela pessoa que era pra eu recusar ou qualquer outra besteira. Porque, por incrível que pareça, as pessoas erradas aparecem exatamente na hora certa e já chegam nos tirando o chão.

Passei o dia todo repetindo que não o encontraria até o momento em que ele me mandou uma sms: “Te pego às oito?”, o que responder? Um conflito entre razão e emoção ameaçando estragar o teatro que idealizei o dia todo. “Quando ele aparecer não vou respondê-lo, vou sumir. Ele não merece atenção”. E esse “te pego às oito” surpresa me fez querer gritar que ele poderia vir, se quisesse poderia me levar junto com ele pra longe dessa cidade também, pra longe dos meus medos, das pessoas monótonas e da vida parada dessa cidade pequena. Normalmente nem responderia e caso respondesse, diria algo do tipo “Ah, não posso” ou encontraria uma desculpa esfarrapada para não me envolver em algo que eu sei que não dá certo, que nunca deu.

Mas ah, eu estou no meu dia do pé esquerdo, por que não iria? Respondi: “Tudo bem”. Nada estava bem, mas a importância que eu dou para isso estava em um lugar desconhecido e quase nunca frequentado por mim. Ir ou não ir? E claro que eu fui. Fui e me arrependi. Não por ter ido, por não ter continuado. Esqueci como ele era lindo, esqueci o charme e o quanto queria continuar. A vontade de esquecer aquele cabelo arrepiado e o sorriso encantador o tornaram horrivelmente assustador em minha mente. Não posso negar, senti falta dele nesses últimos tempos. Lembrei de tudo que eu fiz um grande esforço para esquecer.E em uma noite eu disse sim por todas as vezes que eu disse não. Odeio o fato dele ser forte, bem resolvido, educado, gentil, bem humorado e abrir a porta do carro.

Odeio ter que odiar cada milímetro que compõe aquela obra de arte tão bem desenhada por Deus pelo simples fato de não saber como lidar com a distância que nos separa. Odeio falar sobre minhas neuroses e ele responder tudo com um sorriso. Como descrevê-lo? Você o reconheceria se o visse. É aquele cara que te faz querer ser dele, sem nem desconfiar que você já é. Aquele que você não quer ter por perto por medo de perder e se perder. Aquele que te faz sentir calafrios com um só olhar. Ele é o cara errado totalmente certo para a ocasião. Estávamos juntos e as flores de plástico na sala respiravam por mim enquanto ele me olhava e consequentemente me tirava o ar. Todos os quadros pendurados ali não eram bons o suficiente para ofuscar tamanha beleza.

Saber adorar essas qualidades sem o amar, sem ter nenhuma necessidade e todo aquele sentimentalismo bobo é absurdamente assustador e ao mesmo tempo terrivelmente tentador. Aquele lance que você sabe que, bem no fundo, é mais carnal que qualquer outra coisa. E é bom ter uma pessoa por perto que não romantize tudo, que não queira te ter para sempre e te deixe sempre pela metade no final de tudo.Incompleta, vazia. É bom aproveitar um sorriso em uma noite e deixá-lo em uma estante no fundo da memória para não correr o risco de se apegar demais a ele. Deixá-lo livre e ser de outra pessoa para não perder noites de sono com um ciúme absurdo. Deixá-lo, somente.

Me deixar congelar com cada ato e continuar vulgarizando esse projeto de sentimento para não sofrer mais tarde. Seguir adiante e deixar a gente voltar ao início sempre que possível, se encontrando e desapegando a cada reencontro. Uma liberdade que nos prende e um medo de sentir que nos separa. Uma história completamente vazia e estupidamente completa.

iannina

Texto por Raiane Ribeiro, conheça o blog dela!

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